sábado, 8 de novembro de 2008

Prefácio de Maria João Saraiva de Menezes à obra "Murmúrios" de Elisabete Lucas

Prefácio à obra "Murmúrios"
de Elisabete Lucas
Depois de nos presentear com o seu natural talento na arte do romance, Elisabete Lucas traz-nos estes contos surpreendentes e leves; mas diria também brutais, isto é, duma subtileza quase insustentável. Arriscaria mesmo dizer que Elisabete Lucas nasceu – literariamente falando – para se exprimir em conto. Em primeiro lugar, porque a autora conhece as (aparentes) limitações do conto-em-si, transformando-as em poder criativo e metamorfoseante. Para Elisabete, um conto não é nunca uma simples história, mas uma história surpreendente graças à sua simplicidade. Nas suas mãos, os contos não são, pois, pacatas narrativas, mas inesperadas receitas de vida, de caracteres diversos que se revelam através das suas próprias contradições. Porém, sobreleva sempre um sentimento de unicidade, ou seja, lendo estes contos, encontramos um fio condutor emocional. Aqui, as coisas mais importantes são, afinal, as coisas mais simples da vida; e tudo toma vida nesse improvável cenário. É frequente a figura da mulher ambiguamente frágil e também capaz de uma força que lhe vem das entranhas. Nós, mulheres, rever-nos-emos nas mulheres de Elisabete Lucas: mulheres casadas, solteiras, mal-amadas, desamadas, incompreendidas ou simplesmente invisíveis aos olhos de um marido há muito cimentado nas suas vidas ou de uma vida há muito cimentada na rotina. Rever-nos-emos nessas mulheres que não chegaram a ver o rosto dos seus filhos, ou noutras que perderam os sonhos do passado, ou ainda naquelas que foram ultrapassadas pelo tempo, como se houvesse um prazo de validade para a vida ou para a felicidade. A força da aparente fragilidade expressa nestas personagens é o facto de cada conto exprimir uma catarse realizada através de momentos fortes: assaltos, mortes, funerais ou acidentes; catarse essa que eleva a personagem a um patamar superior de espiritualidade, arrastando-nos e envolvendo-nos por osmose. E Elisabete é perita em encontrar o momento certo para a catarse da personagem, sendo esse momento o último de que o leitor estaria à espera. A imprevisibilidade é pois, uma característica da sua escrita. Quando tudo parece estabelecido, quando a personagem parece conformada ou absolutamente deslocada do seu almejado destino, eis que surge um fôlego – deliberadamente reservado para o final – que dá ao leitor a cereja no topo do bolo, não desiludindo, não desmanchando todo o fio que conduzia a um porto e que, num acto inesperado, se transforma, qual apoteose. Este artifício surpresa surte o seu efeito desconcertante; o final deixa-nos suspensos de incredulidade. Por outro lado, a magia que vem da simplicidade da sua escrita embala-nos nas suas histórias como uma onda suave, para logo nos sacudir num turbilhão de reviravoltas.
Quando a Elisabete me pediu para escrever este prefácio, disse-me: “Os contos retratam sobretudo mulheres, contando histórias de forma leve, mas focando temas nos quais elas seguramente se revêem, ainda que não tenham sido escritas para um público apenas feminino. É escrito por mim, mas nalgumas situações parecia que os meus dedos escreviam sozinhos, ao mando das personagens. Nunca tive a preocupação de as censurar, por vezes ria sozinha do que me queriam dizer, outras vezes temi que não me deixassem dar finais felizes. Nem todas as histórias têm finais felizes, porque a vida é mesmo assim!
Percebi então, de onde vinha esse encanto, essa certa magia no fluir dos contos, senão de uma certa autonomia do conto-em-si para além da autora, como se fosse a vida a escrever pelos dedos de Elisabete, querendo libertar-se e mostrar o quão importantes são as pequenas coisas, as emoções femininas, a dimensão dos sentidos. A marca dominante na escrita de Elisabete Lucas é o facto de a mulher ser vista a partir de dentro, do seu mundo interior; sendo cada passo o resultado de uma angústia, de um estremecer, de uma memória ou mesmo de uma tragédia. Na verdade, estas mulheres brotam todas de uma fonte que lamenta o desencanto da vida, sonhos que ficaram por viver, passos que o destino traçou. No conto “A Beleza do Mundo ou a falta dela”, temos este padrão amplamente explorado: uma mulher casada, infeliz com o desencanto de um casamento onde predomina a insensibilidade do marido e em que num ápice, se passa de uma vida aparentemente perfeita para uma vida destruída por pequenos nadas que afinal são tudo. A própria autora o confirma: “Os anos vão mostrando, por vezes com uma piedade duvidosa, que os sonhos quase nunca passam disso e vão directamente da gaveta do desejo para a da mágoa, sem nunca terem visto a luz do dia”. No entanto, também são evidentes as pequenas maravilhas, personagens que vão mais longe do que o seu próprio destino, caracteres que vivem vidas tragicamente normais ou comicamente trágicas, como é o caso do desenrolar do conto “Quando a Natureza troca as voltas”, em que, mesmo após o efeito tragicómico, lemos nele a vida em si mesma, com as suas ironias. É quase imperceptível esse dom tragicómico de Elisabete, mas podemos vê-lo perpassar também o conto “Aparência de realidade”. Por outro lado, temos sempre a magia de momentos memoráveis, como é o caso do conto “Um Natal diferente” em que uma mulher, deixada de lado pela vida, pelos filhos e pelo marido, vive a noite de Natal em solidão. Eis senão quando um mendigo lhe bate à porta e pergunta: “Sabe dizer-me onde fica o Natal?” E ali nasce uma nova noite de Natal, um novo sentido para a vida, uma magia que vem dos gestos simples da vida, quase a lembrar “A Noite de Natal” de Sophia de Mello Breyner, ou o “Suave Milagre” de Eça de Queiroz.
Nestes contos, lemos também a consciência humana da precariedade, enraizada numa certa carência afectiva - qual consciência da morte e da pequenez humana. A vida é pois, nos contos de Elisabete, um murmurar imperceptível que deve ser escutado de forma original. A imprevisibilidade, a simplicidade, dão-nos personagens com um relevo inesperado. Traço distintivo é a referida beleza do momento presente aliada à fatalidade do destino, tal como vemos em “Se o céu fosse vermelho”, em que a aceitação das coisas boas da vida – os filhos, neste caso – serve de paliativo para as tragédias inexoráveis – como a morte da mulher e mãe das crianças. Assim sendo, tudo o que resta é contemplar a beleza do firmamento e fechar os olhos…
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Maria João Saraiva de Menezes
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Lisboa, 20 de Outubro de 2008
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Poderá consultar o site da autora da obra, clicando no link:
http://www.elisabetelucas.com/

6 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem estruturado e muito agradável à leitura este prefácio.
Vou seguindo com muito agrado o percurso ascendente na escrita, e o blog.


Filipa Jardim

Anónimo disse...

Maria
Parabéns pelo seu prefácio. Se a sua amiga, como nos relata no seu prefácio, tem magia a escrever, a Maria não lhe fica atrás.
Um beijinho e continue a escrever.
Dina

Anónimo disse...

Muitos Parabéns.
Gostei muito de ler o teu prefácio e naturalmente fiquei com vontade de espreitar as histórias.
Obrigada
L.T.

Sílvia Dória disse...

Maria,
Muitíssimo bem escrito, sempre com a alma e o coração. Bem hajas pelos momentos de sensibilidade e cultura.
Sílvia

Fatima disse...

E eu que estava no lançamento do libvro da Elisabete, e não sabia que outra escritora lia o prefácio dos Murmúrios....
Parabéns a ambas|

Anónimo disse...

Gostei dos contos, mas gostei particularmente do teu prefácio. Muito bem escrito, muito pertinente e revelador de uma acuidade de leitura de que te dou os Parabéns. Sim, senhora!!!
Bom Ano!!!
Beijinhos
L.T.