sábado, 6 de setembro de 2008

Livro de poesia PEGADAS DE VENTO de Maria João Saraiva de Menezes


O lançamento do meu livro de poesia PEGADAS DE VENTO, Editora Tecto de Nuvens, realizou-se a 12 de Junho 2008, às 12h30 na biblioteca da Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa.

RASGOS
Cravam-se as garras
da pantera em meu rosto
com o peso das patas descem
até sangrarem os seios
Garras rasgam o rosto
sangrando florescem as fendas
afastadas em sentido oposto
abre-se minha boca felina
Lentamente
meu grito e o da pantera
são o mesmo
meus seios felinos
são brancos e humanos
mas é de predador a dentição
e no fundo dos olhos sangue
um losango
desenha-se
Maciço


Pegadas de Vento revela um lado poético, íntimo, romântico, contemplativo. É a minha forma de exprimir o meu amor pelo meu objecto amado, mas também de o questionar, interpelar, rebelar, aceitar e recusar. Pegadas de Vento é, para além de tudo o que disse, o meu Mito de Sísifo. Sim, porque para além de  contemplar a maravilha da Criação, também a temo, também a questiono, também interpelo esse Deus que é Amor encoberto/descoberto. Pegadas de Vento é o meu Mito de Sísifo porque também revela o meu lado existencialista, trágico, pondo a descoberto o meu confronto com a precariedade, o meu abismo nihilista, o meu desafio ao Infinito. No Mito de Sísifo, escrito pelos gregos antigos e reescrito por Camus, o Homem é esse ser cuja vida sem sentido apenas reflecte o absurdo da sua existência. Pegadas de Vento exprime esse sentimento de desespero, de absurdo, de existencialismo do Homem que vive a vida por viver, desconhecendo o sentido absoluto da sua existência. No entanto, Pegadas de Vento sabe que, à semelhança de Sísifo, rolamos a pedra ao longo de uma existência finita e absurda, mas ao contrário do herói trágico, é o Amor que dá sentido a tudo isto a que chamamos Vida. É o Amor que nos faz homens que desejam e lutam, ultrapassando assim uma ínfima parte da sua finitude. Não deixa de haver um lamento, um certeza da Morte, qual Cronos, o Deus do Tempo, que devora os próprios filhos... Não deixa, também, de haver a consciência de que neste mito que é a própria humanidade, já tudo foi dito, tudo foi sentido, tudo foi sofrido e tudo foi chorado.Resta-nos, pois o Amor, sim, para além da dor, da dúvida, do luto, da luta, da ausência. O Amor é a forma suprema de afinar a vida. E a poesia, o seu instrumento musical.
Maria João Saraiva de Menezes
Lisboa, 24 de Abril 2008


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Segundo a mitologia grega, Sísifo fora condenado pelos deuses a realizar um trabalho inútil e sem esperança por toda a eternidade: empurrar sem descanso uma enorme pedra até o alto de uma montanha de onde ela rolaria encosta abaixo para que o absurdo herói mitológico descesse em seguida até o sopé e empurrasse novamente o rochedo até o alto, e assim indefinidamente, numa repetição monótona e interminável através dos tempos. O inferno de Sísifo é a trágica condenação de estar empregado em algo que a nada leva - daí a sua condição absurda. Ele amara a vida e menosprezara os deuses e a morte. Por tal insolência fora castigado a realizar um trabalho sem esperança.


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Albert Camus, prémio nobel da literatura em 1957, retomou o Mito de Sísifo para um estudo sobre o suicídio. A sua análise sobre a consciência humana e a natureza do absurdo são acutilantes: "Você já captou que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é, tanto pelas suas paixões quanto pela sua tortura. Seu desdém pelos deuses, seu ódio pela morte e sua paixão pela vida fizeram com que ele recebesse aquele inexprimível castigo no qual todo o seu ser se esforça para executar absolutamente nada. Este é o preço que deve ser pago pelas paixões neste mundo. (...) Quanto a este mito, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo esforçando-se para levantar a imensa pedra, rolá-la e empurrá-la ladeira acima centenas de vezes; vê-se o rosto comprimido, a face apertada contra a pedra, o ombro que escora a massa recoberta de terra, os pés apoiando, o impulso com os braços estendidos, a segurança totalmente humana de duas mãos cobertas de terra. Ao final deste longo esforço medido pelo espaço e tempo infinitos, o objectivo é atingido. Então Sísifo observa a rocha rolar para baixo em poucos segundos, em direção ao reino dos mortos, de onde ele terá que empurrá-la novamente em direção ao cume. Ele desce para a planície. É durante este retorno, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que trabalhou tão próximo à pedra, já é a própria pedra! Eu vejo aquele homem descendo com um passo muito medido, em direção ao tormento que ele sabe que nunca terá fim. Aquela hora, que é como um momento de respiração, que sempre voltará assim como seu sofrimento; é a hora da consciência. Em cada um destes momentos, quando ele deixa as alturas e gradualmente mergulha no covil dos deuses, ele é superior ao seu destino. Ele é mais forte do que sua pedra. Se este mito é trágico, é porquê o seu herói é consciente. Onde estaria realmente a sua tortura se a cada passo a esperança de prosperar o sustentasse? O trabalhador de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e o seu destino não é menos absurdo. Mas é trágico apenas nos raros momentos em que ele toma consciência. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e rebelde, sabe a total extensão de sua miserável condição: é nisso que ele pensa durante sua descida. A lucidez que deveria constituir a sua tortura ao mesmo tempo coroa a sua vitória. Não há destino que não possa ser superado pelo desprezo. Se desta maneira, a descida é realizada às vezes com tristeza, também pode ser realizada com alegria. Esta palavra não é exagerada. Novamente, eu imagino Sísifo retornando em direção à sua rocha; o sofrimento estava no início. (...) A sabedoria antiga confirma o heroísmo moderno. (...) Não há um só mundo, de qualquer maneira. Felicidade e absurdo são dois filhos da mesma Terra. Eles são inseparáveis. Seria um erro dizer que a felicidade nasce necessariamente do descobrimento do absurdo. O mesmo quanto ao sentimento do absurdo nascer da felicidade. (...) Toda a alegria silenciosa de Sísifo está contida nisto. O seu destino pertence-lhe. A sua rocha é algo semelhante ao homem absurdo quando contempla o seu tormento; silencia todos os ídolos. No universo subitamente devolvido ao seu silêncio, as pequenas vozes extremamente fascinantes do mundo elevam-se. A inconsciência, os chamados secretos, os convites de todos os aspectos, eles são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra, e é essencial conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e os seus esforços doravante serão incessantes. Se há um destino pessoal, não há um destino superior, ou há, mas um que ele conclui que é inevitável e desprezível. (...) Eu deixo Sísifo no pé da montanha! Mas Sísifo ensina a mais alta honestidade, que nega os deuses e ergue rochas. O universo, de agora em diante sem um mestre, não lhe parece nem estéril nem inútil. Cada átomo daquela pedra, cada lasca mineral daquela montanha repleta de noite, em si próprio forma um mundo. A própria luta em direcção às alturas é suficiente para preencher o coração de um homem. Deve-se imaginar Sísifo feliz.


Albert Camus, O Mito de Sísifo.

Poderá adquirir o livro online:
http://www.wook.pt/

PVP: 6 euros

Sinopse:
Colectânea de poemas de carácter biográfico. O amor e a paixão são a base desta obra que tem uma dedicatória muito especial. António Carlos Cortez é o autor do prefácio, num livro em que muitos dos poemas foram lidos, avaliados e aprovados por David Mourão-Ferreira.



https://sites.google.com/site/factosdavidareal/literatura/maria-joo-saraiva-de-menezes

2 comentários:

Anónimo disse...

Estimada Maria
Agradeço a partilha. Apesar de ser um fraco consumidor de internet, quando há bons motivos também entro na rede. Vi o seu blog que é muito interessante.
Obrigado
manuel silva terra

CASA do SUL
http://casadosul.blogspot.com

Anónimo disse...

Olha, há uma coisa que não me cairá da memória - a não ser que depois aconteça cair-me a memória.
- Sempre te vi com muita força a escrever.
É uma grande memória que guardo de ti.

Na oportunidade que surgirá,
"folhearei" o teu livro.

Escrevo-te depois qualquer coisa.

Até já.

| Pedro de Andrade |
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www.ohabitante.com